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A cura do câncer já é possível?

Uma enorme vitória da ciência médica é replicada no Brasil, trazendo esperança para centenas de milhares de pacientes com câncer intratável.

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A cura do câncer já é possível?

Um dos maiores medos de qualquer ser humano, principalmente os adultos de uma certa idade, é ficar com um câncer. A doença (ou melhor, um conjunto grande de mais de 100 doenças com esse nome) tem uma fama maldita, de ser fatal e provocar terríveis sofrimentos em sua fase final. E todos nós, se vivermos bastante, acabaremos por contrair um câncer, também chamado de neoplasia (que quer dizer “novo crescimento”). A cura definitiva do câncer é algo certamente que todos os seres humanos querem!

É por isso que uma enorme onda de otimismo e de entusiasmo tomou uma boa parte da população brasileira, ao ser anunciada recentemente uma cura definitiva de um câncer do sistema linfático em um brasileiro, o temível linfoma Não Hodgkin, em grau máximo de gravidade. O paciente já estava desenganado pelos médicos, ou seja, todas as alternativas convencionais de tratamento tinham falhado e restava pouco tempo de vida para o paciente, um homem de 63 anos de idade, que lutava há tempos com o câncer. O linfoma é uma neoplasia que acomete as células brancas do sangue e espalha-se por todo o corpo, portanto, acometendo os gânglios linfáticos.

Esse tratamento anunciou uma nova era na luta desigual contra o câncer. Embora a maioria das neoplasias seja curável hoje, quando tratada em uma fase inicial, tumores e outros tipos de câncer tardios, em grau máximo de desenvolvimento, são muito resistentes aos vários tipos de tratamento, e a cura é rara. Era o caso do paciente em questão.

O tratamento (não é um medicamento) chama-se CAR-T, que é uma abreviatura de Chimeric Antigen Receptor T Cell. Ele funciona assim: as células cancerosas do linfoma têm em sua superfície de membrana uma proteína chamada CD-19. No entanto os linfócitos do tipo T, que são os que combatem microorganismos e células doentes, não conseguem reconhecer essa proteína, por ser do nosso próprio corpo, e as células cancerosas se multiplicam desordenadamente.

Então, o que os pesquisadores estrangeiros desenvolveram (eles ganharam o Prêmio Nobel de Medicina por essa descoberta), e os pesquisadores brasileiros do Centro de Terapia Celular na Faculdade de Medicina, Hemocentro e Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo conseguiram implementar?. Simplesmente uma forma de “ensinar” os linfócitos T a reconhecerem e matarem estas células cancerosas. Para isso, eles retiraram do sangue do paciente muitos desses linfócitos T, e inseriram em seu DNA um novo gene, capaz de produzir uma outra proteína, chamada de receptor quimérico de antígeno (quimera é um ser mítico formado de partes de vários animais, em biologia refere-se a uma célula natural ou produzida que tem DNA oriundo de células de outros organismos, e o antígeno é a tal CD-19). Esses linfócitos foram multiplicados enormemente em cultura artificial fora do corpo e reinjetados na circulação do paciente. Com isso, os linfócitos T conseguiram procurar, reconhecer e eliminar as células cancerosas, em um processo extremamente rápido (apenas duas semanas). O paciente foi declarado curado, sem mais nenhum sintoma ou sinal do linfoma na circulação, e recebeu alta. Uma verdadeira dádiva de vida, dada pela ciência médica nacional, realizada em um hospital público, com verba de nossos impostos.

Figura: Como funciona o tratamento CAR-T. Parcialmente copiado de imagem cedida pela Agência de Notícias da USP [1]

Essa mesma técnica de engenharia genética tem o potencial para ser aplicado para muitos tipos de câncer. É uma questão de tempo e de mais pesquisas científicas, pois depende de serem achadas proteínas de superfície específicas para as células de cada tipo de câncer. É uma técnica natural, pois recruta as próprias armas do sistema imune da pessia, e não utiliza quimioterápicos, que geralmente são extremamente tóxicos e provocam mais mal do que bem, além de não serem específicos para as células do câncer sendo combatido. Ela não é desprovida de riscos (provoca reações intensas, causadas por uma forte liberação de substâncias chamadas citocinas), mas é comprovadamente eficaz. Novos pacientes já estão sendo preparados para tratamento pelo grupo de Ribeirão Preto, e outros grupos de cancerologia por todo país terão condições de replicá-lo, beneficiando milhares de pacientes.

E a melhor notícia de todas: tudo isso inteiramente de graça para os pacientes, pois é um serviço do SUS. O custo é altíssimo nos EUA: um único tratamento pode custar 4 milhões de reais lá! E se for praticado nesse nível aqui, certamente quebraria financeiramente o SUS e a maioria dos planos de saúde, que não estão preparados para arcar com esse custo. No entanto, os pesquisadores brasileiros conseguiram realizar por um custo 20 vezes menor, o que viabiliza bancar o tratamento pelo SUS, que é um direito de todos os brasileiros! E o custo tende a baixar, à medida que mais laboratórios bem equipados possam realizá-lo.

Vivemos em tempos maravilhosos de progresso da ciência médica, não acham? E o financiamento da pesquisa básica e aplicada nas universidades públicas é fundamental para que isso seja atingido, para o bem de todos os brasileiros. O SUS também é uma enorme conquista para a saúde do brasileiro. Dinheiro otimamente bem aplicado, apoie você também o aumento das verbas para a universidade pública e o SUS.

Leia também:

  1. Salles, S.: Terapia inédita na América Latina devolve futuro a paciente com câncer terminal. Médicos da USP aplicaram pela primeira vez imunoterapia que usa células T do paciente para tratar linfoma gravíssimo. Jornal da USP. 10/10/2019. Em: https://jornal.usp.br/?p=278299
  2. @Renato Marcos Endrizzi Sabbatini

Dr. Renato Sabbatini

Graduado em Ciências Biomédicas (1968) e doutorado em Fisiologia e Biofísica (1977) pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em neurofisiologia do comportamento. Pós-doutorado em neurofisiologia do comportamento de primatas e informática em neurociências, pelo Instituto Max-Planck de Psiquiatria, Munique, Alemanha (1977-1979). Professor assistente doutor do Departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (1972-1983), onde fundou e dirigiu o Laboratório de Neuroetologia, e o serviço de computação em fisiologia; e professor livre-docente e associado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (1983-2003), onde foi também docente e pesquisador associado do Instituto de Biologia (Departamento de Fisiologia) e da Faculdade de Engenharia Elétrica e da Computação (Departamento de Engenharia Biomédica). Fundador e diretor do Núcleo de Informática Biomédica da UNICAMP e coordenador da Área de Informática Médica e Bioestatística da FCM/UNICAMP (1983-2003). Fundador (1986) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (1988-1990) da qual foi também diretor de Educação e Capacitação Profissional.e atualmente é diretor do Programa de Orientação de Talentos Profissionais em Informática em Saúde. Ex-diretor de informática da Associação Médica Brasileira. Fundador e presidente do Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde e Coordenador do Centro Internacional de Tecnologias de Informação e Comunicação em Saúde (2000-presente). Fundador (2009), Vice-presidente e Diretor de Educação e Capacitação Profissional do Instituto HL7 Brasil. Vice-presidente e membro fundador da Associação IHE Brasil - Integrating the Health Enterprise (2014-2018). Founding Fellow da International Academy of Health Sciences Informatics (2017-presente). Áreas de atuação em pesquisa, desenvolvimento e ensino: - Informática em saúde - Telemedicina - Educação a distância - Publicações eletrônicas - Neurocências - Métodos quantitativos em biologia e medicina. Campos eletromagnéticos de alta frequência, biologia e saúde.

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