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Cannabis Medicinal – o retorno

Cannabis terapêutica

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Cannabis Medicinal – o retorno

Você sabia que as drogas derivadas da morfina chamados opióides, eram muito usados como drogas alucinógenas? Vários medicamentos que temos hoje, também são derivados de plantas. Outros exemplos são a aspirina, ou ácido acetilsalicílico, que é derivado da arvore salgueiro, ou então o paclitaxel, que é um medicamento para o tratamento de alguns tipos de câncer e era extraído do teixo ou Taxus baccata, uma planta muito comum na decoração de jardins e cercas.

E seguindo esta mesma linha, hoje utilizamos o extrato da Cannabis sp. para produzir alguns medicamentos muito úteis no tratamento de várias doenças.

A Cannabis tem cerca de 400 substâncias identificadas, como terpenos, limonenos, mircenos, fitoesteróis entre outros, mas os dois componentes ativos o CBD e o THC é quem fazem a planta ter propriedades terapêuticas.

O CBD ou canabidiol, é um composto sem propriedades psicoativas, apesar de também ter receptores no cérebro. Ele tem ação antinflamatória, analgésica, anticonvulsivante, ansiolítica e tem um papel ainda a ser esclarecido no tratamento de Alzheimer.

Já o THC (tetra-hidrocanabinol) é o componente da planta que tem efeitos como a analgesia, diminuição de náuseas causadas por tratamentos quimioterápicos, estimulação de apetite, antiespasmódico, além do efeito psicoativo relaxante. Por isso, tem sido indicado para pacientes em cuidados paliativos e aqueles que fazem tratamento oncológico.

Quando bem indicados por um médico e na dosagem correta, estes componentes ativos podem ter um papel importante no alivio de todos estes sintomas descritos acima, já que agem no nosso sistema endocannabinóide, o qual foi descrito apenas em 1984, pelo Dr. Raphael Mechoulam, um químico orgânico e professor na Faculdade de Química da Universidade de Jerusalém em Israel. Este sistema endocannabinoide, tem um papel importante na regulação de vários outros sistemas no corpo, como por exemplo o sistema autoimune, o sistema reprodutor, processos cognitivos, humor, o controle da dor, o relaxamento muscular e muitos outros.  Nós produzimos nossos próprios endocannabinóides (a anandamida e o 2-arachidonoilglicerol ou 2-AG) que tem papel fundamental na neurotransmissão. Além de terem funções de controle em vários sistemas do corpo, acredita-se que a anandamida, junto com outros neurotransmissores euforizantes, contribuem para aquela sensação de bem-estar quando fazemos exercícios físicos intensos.

A Cannabis é utilizada pela humanidade há cerca de 4.000 anos, seja em rituais religiosos ou como medicamento. Existem vários relatos de achados de cannabis junto com corpos mumificados em várias partes do mundo.

O uso medicinal talvez tenha iniciado na China há mais de 2.000 anos, quando era fornecido aos pacientes como parte do tratamento de dores nas articulações (gota e reumatismo).

No século 19, um médico irlandês, trabalhando na Índia notou que um extrato da planta dado para uma menina que tinha muitas convulsões por dia, melhorava muito as condições da paciente. William O’Shaughnessy, então levou a planta para a Europa, aonde era praticamente desconhecida e publicou um artigo sobre o uso medicinal da cannabis em um periódico médico (Asiatic Society of Bengal) com o título “Sobre as preparações da cannabis indiana, ou Gunjah”. A partir daí, começou a experimentar em animais para tentar entender as doses seguras, e ao confirmar a segurança, iniciou a prescrição para doentes em seu hospital, tratando reumatismo, convulsões, tétano e até raiva.

O uso da cannabis começou a ser criminalizado em 1937. A venda de produtos a base da planta, que eram muitos e inclusive de laboratórios farmacêuticos que ainda existem hoje, foram proibidas nos Estados Unidos. Em 1950 veio a criminalização da posse da cannabis para qualquer tipo de uso e as pesquisas médicas praticamente deixaram de existir.

No último terço do século passado, com a descrição do sistema endocannabinoide, o número de pesquisas aumentou em diversas áreas. Até que hoje, temos muitas evidências cientificas que suportam o uso dos componentes da cannabis. Várias pesquisas estão sendo realizadas com os componentes da planta para definir suas atividades como antinflamatório, atividade antitumoral impedindo o crescimento de tumores, atividade neuroprotetora (tratamento de epilepsia, Alzheimer, Parkinson e outras doenças degenerativas), doenças autoimunes (diabetes, esclerose múltipla, psoríase), entre outras.

Existem várias linhas de pesquisas sendo desenvolvidas, como por exemplo o efeito do THCV ou do CBDN, componentes da cannabis que tem algumas ações especificas, mas que também potencializam os efeitos do THC e do CBD. Aliás, o uso da forma natural da planta ou seja, o extrato das flores, é reconhecido por ter efeitos medicinais superiores quando comparado aos componentes isolados. A isto se dá o nome de Efeito Entourage ou efeito comitiva.

Outro ponto muito importante de ser abordado sobre a cannabis medicinal é seu perfil de segurança. Até hoje, desconhecemos mortes causadas por overdose de cannabis, mesmo no uso adulto. Este perfil de segurança animador é devido a distribuição dos receptores no sistema endocannabinoide e também a baixa interação com outros medicamentos. Quando comparamos com os opióides, os efeitos colaterais são cerca de 95% menores para a cannabis. E também é possível utilizar a cannabis para a redução das doses de opióides em pacientes com dor crônica.

Como já existem cerca de 7.000 pacientes utilizando este medicamento no Brasil, através das vias legais da ANVISA e aproximadamente 900 médicos que já prescreveram (apenas 0,2% dos médicos ativos no Brasil), é importante que se amplie o conhecimento sobre o uso médico potencial dos extratos da cannabis. A educação médica é fundamental para que o conhecimento possa ser ampliado e difundido de maneira clara e transparente, diminuindo o estigma e facilitando o acesso dos pacientes.

Além da educação médica, é muito importante que o publico geral e aqueles que tem alguma interação com o assunto, como juízes e policiais, também tenham acesso a informação de qualidade para que possam tomar decisões baseadas em fatos científicos.

Hoje, os cientistas estão trabalhando com muita energia para que hoje possamos colocar a ciência necessária por detrás da prescrição médica. E com a recente abertura da consulta publica pela ANVISA para o uso médico de cannabis, esperamos que em breve possamos ter acesso a este recurso importante no arsenal terapêutico médico.

@imca – instituto de medicina tradicional chinesa

 

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Dr. Wellington Briques

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, tem pós-graduação em medicina farmacêutica pela Unifesp, em medicina chinesa e acupuntura pelo Instituto de Ortopedia da Faculdade de Medicina da USP. Médico Acupunturista da Clínica Médica IMCA e do ambulatório Médico da Bayer, é Membro do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura e da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica.

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