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Quanto vale a pele dos seus pais?

Qual o valor da Vida?

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Quanto vale a pele dos seus pais?

O título parece estranho, poderia ser: Quanto vale a dor dos seus pais? Quanto vale o conforto dos seus pais? Quanto vale a felicidade dos seus pais?

Relato de Profissional, Pai e Filho

Meu nome é Evandro Reis, sou Médico e Enfermeiro especialista em Tratamento de Feridas.
Na última semana recebi uma mensagem em meu whatsApp de uma filha solicitando orçamento para atendimento de sua mãe, portadora de uma ferida crônica.
Embora não goste dessa exposição, vou revelar o valor. Hoje cobramos por um atendimento domiciliar R$ 250,00 (Duzentos e Cinquenta Reais). Não vou entrar muito em detalhes sobre o valor do nosso trabalho, mas posso fazer uma defesa breve. Esse valor inclui a visita domiciliar do Enfermeiro, a consulta via Telemedicina de uma junta médica de especialistas e o primeiro procedimento incluindo todo o material.

A filha e sobrinha dessa paciente ficaram de conversar com os outros quatro irmãos para tomarem uma decisão, essa é a resposta que mais temos em nosso serviço, vamos pensar e retornamos. Isso quase nunca acontece.
Sei que estamos em crise, porém é um valor baixo em relação ao resultado que entregamos.
Eu sou muito preocupado com meus pacientes, faço questão de as vezes mesmo com a recusa inicial abordar as famílias na tentativa de iniciar o tratamento, essa paciente em questão ficou martelando na minha cabeça. Na maioria das vezes recebo fotos, e para quem trabalha com tratamento de feridas isso é torturante. Fiquei pensando no tamanho do sofrimento daquela paciente. Não é pelo dinheiro, embora muita famílias acreditem que sim, eu particularmente tenho sob meus cuidados e da minha equipe centenas de pacientes ativos, mas cada paciente novo é uma pessoa a menos sofrendo.

Enfim, após duas semanas, fui rever os contatos de pacientes e abordei a filha: “Olá, como está sua mãe? Quero te ajudar a melhorar a qualidade de vida dela.
Foi quando veio a resposta que nunca antes havia recebido em anos de profissão: Doutor, minha mãe morreu essa madrugada, a ferida dela sangrou, e já chegou no hospital morta.
Aquilo foi como uma facada no meu peito, me veio um sentimento de culpa, meu Deus, deveria ter feito algo, poderia ter evitado isso, foram horas sendo massacrado por esse sentimento.

Passado essa primeira fase, veio o momento racional, e quando comecei a analisar, percebi que não tenho tanta culpa assim, afinal essa é minha profissão, vivo disso, tenho inúmeras despesas, estudei para isso, já faço trabalhos sociais, atendo pacientes, faço doação de materiais, tento desempenhar da melhor forma possível o meu papel de cidadão, mas também preciso desempenhar o meu papel de pai, de marido e para isso é também necessário e importante que eu tenha um trabalho remunerado.

Em uma tentativa de aliviar minha aflição, que ainda persistia, pelo nome e telefone da filha encontrei seu perfil no Facebook. Por curiosidade (natural do ser humano) contatei em seu perfil fotos de baladas, passeios, praias no nordeste e muita ostentação.

Embora tenha dito que nunca tinha tido um caso de uma paciente que morreu diretamente pela ferida, essa situação de filhos que não assumem o tratamento é a coisa mais corriqueira no dia a dia.
Meu sentimento de culpa foi alterado por um sentimento de raiva, indignação. Não fui atrás de perfis dos outros irmão, mas comecei a refletir.

Eu sou pai de duas crianças, meu filho recentemente teve uma síndrome chamada pé-mão-boca. As lesões tomaram conta da sua pele, eu cuidei não como especialista, mas como pai. Tinha possibilidade de transferir para sua babá os cuidados, mas eu fazia questão de dar banho com sabonete especial, passar cremes e ligava de duas a três vezes por dia para saber se estava melhorando.

Me pus a pensar naquele mãe que morreu, quantas noites mal dormidas, quantas assaduras, cuidados com arranhões, cinco filhos, quanta luta. Não merecia esse fim, morrer de algo evitável.
Não foi por falta de dinheiro, as pessoas priorizam tudo, menos os cuidados com o que elas possuem de mais valioso: seus pais.

Com toda essa explicação eu gostaria de deixar uma pergunta: Quanto vale a felicidade dos seus pais?

Dr. Evandro Pereira

Possui Graduação em Medicina e Enfermagem, o que confere um grande diferencial no estabelecimento do tratamento do paciente portador de feridas e cuidados com estomas . O paciente portador de lesões muitas vezes possui patologias que podem contribuir para o retardo da cicatrização. Ter um profissional capacitado para tratar a ferida e essas morbidades é de uma importância fundamental para o sucesso do tratamento. • Pós Graduado em Estomaterapia pela Universidade de Taubaté • Graduação em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein. • Graduação em Medicina pela Universidade Vale do Rio Verde. • Médico Assistencial na Prêvent Sênior • Médico Assistencial na Prefeitura Municipal de Diadema. • Diretor da Clinica Ebenezer • Palestrante do Curso de Tratamento de Feridas da Estomashop, curso que percorreu 20 estados brasileiros e mais de 50 cidades.

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