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Transtorno de ansiedade pode estar ligada a negatividade?

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O que é a negatividade?

Uma resposta precipitada seria que a negatividade encontrada na pessoa que acha que tudo dá errado, está sempre reclamando, não tem disposição para responder a nenhuma solicitação ou desafio.  Um amigo me lembrou o personagem de um desenho animado antigo de minha infância, que talvez você se lembre : o desenho de Lippy e Hardy, e a repetitiva frase de Hardy : “ Oh céus! Oh vida! Oh azar! ”

Mas para respondermos a esta pergunta, devemos fazer uma abordagem conceitual : a negatividade dentro do pensamento filosófico e a negatividade dentro da ótica médica. Desta forma podemos “mergulhar “ um pouco mais na compreensão de negatividade.

Para Marcuse, o ser humano é sempre mais que sua existência presente, e devido a isso existe uma tensão permanente entre o ser e a possibilidade de ser. Para o filósofo a existência nunca está de posse completa de si própria e de seu mundo. Daí seu conceito de negatividade que surge entre o indivíduo e as condições de existência que lhe são opostas.

Para Adorno, o conceito de negatividade é devido ao estado totalitário da sociedade, à padronização da cultura, à educação semiformativa . O autor ainda considera o esvaziamento do valor humano nas instituições e à frieza e violação das relações interpessoais, que se transformam em meras “relações de trocas de necessidades”. Devido a estas condições surge a anulação do indivíduo. Essa anulação é devida por um lado à pressão objetiva dos grandes grupos econômicos e de outra forma, a subjetiva, através da cultura que se tornou produto da indústria cultural. Desta forma o ser humano tem sua individualidade negada e transformada em mercadoria.

Segundo Sartre o ser humano vive de escolhas, e dependendo das escolhas que fizer irá manifestar sua presença no mundo. Primeiramente o homem existe, e durante sua existência vai construindo sua essência. O filósofo quis dizer que o ser humano é fruto de uma construção que se faz mediante a liberdade de escolha. “ Quando nasce o homem é nada. Não existem idéias inatas anteriormente ao surgimento do homem destinadas a orientar a sua vida. As ideias o homem extrai de sua experiência pessoal. O indivíduo primeiramente existe; torna-se isto ou aquilo , quer dizer, adquire sua essência”

O ser humano ao experimentar a liberdade pode sentir-se como num vazio, sem orientação, perdido,  e viver a angustia da escolha. Muitos não suportam essa angustia e fogem dela num movimento subjetivo que Sartre denominou de má fé; e que outros filósofos denominaram de “angustia existêncial”. A má fé seria a atitude do homem que finge escolher, sem na verdade escolher nada. Seus valores são construídos através de verdades externas, ou verdades que não suas, pois não são frutos de sua escolha. Desta forma, além de não ter exercido a escolha, mente para si próprio. Se engana ao pensar que ele é o autor de seus atos, quando na realidade aceitou sem exercer a crítica, verdades e valores que não são seus. Diz o filósofo “ O ser humano não é somente o ser pelo qual se revela a negatividade do mundo. É também o que pode tomar atitudes negativas com relação a si”

Se procurarmos a definição no dicionário sobre negatividade encontraremos :

  1. Espírito de negação sistemática
  2. Comportamento que consiste em dizer não, sempre ou frequentemente às idéias, solicitações ou propostas dos  outros
  3. Tendência em criticar sem oferecer sugestões ou alternativas construtivas
  4. Atitude de quem espera sempre que o pior aconteça; pessimismo
  5. FILOSOFIA : sistema caracterizado pela recusa a toda realidade e conhecimento
  6. PSICOLOGIA : comportamento patológico caracterizado por atitudes ou gestos contrários ao que são esperados ou solicitados .
  7. PSICOPATOLOGIA PSIQUIATRICA: alteração comportamental caracterizada por uma recusa, ativa ou passiva em relação às solicitações exteriores.

De posse destes conceitos, podemos esboçar uma tentativa de compreensão da negatividade. Agregando tudo o que foi escrito, a negatividade poderia ser uma “ denúncia “ ou até mesmo um “pedido de ajuda” inconsciente do indivíduo em não ter se tornado ele mesmo, não ter tomado “posse “ de si próprio, que se manifesta objetivamente em atitude de rejeição à mais solicitações. Estas podem ser compreendidas inconscientemente como mais “ invasões” a um “eu” ou a uma personalidade frágil. Podemos também compreender a negatividade como um mecanismo consciente marcado pela angústia relacionada à falta de condições de “escolhas” que em muitas situações independeram da vontade e disposição da pessoa. Ele não conseguiu tornar-se si próprio pela combinação de uma série de fatores externos e internos com ingredientes de “impotência”. Não “sou” porque não me deixaram “ser” ou porque falhei em “ser”. De forma análoga, igualmente denuncia o fracasso do “eu” em tornar-se pessoa; neste caso as recusas seriam realizadas de forma mais ativa, quase como um “protesto”.

Quando ela passa a ser um problema?

 Imagino que a negatividade passe a ser um problema quando traz algum tipo de sofrimento ao ser humano, ou o priva de descobrir e viver o melhor de si mesmo. Com este raciocínio pode haver um notável prejuízo na qualidade de vida e inclusive levar o indivíduo a estados de doença.

A negatividade pode evoluir para um quadro de transtorno de ansiedade? Funciona no caminho inverso?

Se partirmos da idéia de que o ansioso é um antecipador ( antecipa a dor ) , ou vive as situações antes das mesmas terem acontecido como que se preparando para elas; a negatividade irá interferir poderosamente no mecanismo de antecipação que terá sua marca: a possibilidade de fracasso, de insucesso, de não realização.

A contra partida do transtorno de ansiedade produzir negatividade também pode ocorrer. Como exemplo, isto pode ocorrer quando um dos fatores causais da ansiedade for decorrente do mêdo. O mêdo que é um sentimento complexo muito poderoso e poderá influenciar de tal forma a ansiedade, que o indivíduo será “inundado” pelo mêdo e com ele as infinitas possibilidades negativas e ameaçadoras.

O que pode ser feito para lidar e tratar estes problemas?

Se voltarmos à primeira pergunta que aborda o conceito de negatividade, diversos pensadores enfatizam a necessidade do indivíduo ser ele próprio ou apoderar-se de si mesmo, tornar-se pessoa na concepção de Jung. A distância entre” o que realmente eu sou “ e “o que gostaria de ser” deve ser cada vez mais diminuída no processo existencial; ou seja, o juízo de realidade deve se aproximar do juízo de valor. Deve-se fazer rotineiramente um movimento de introspecção ou de auto-questionamento com a finalidade de verificar o “quanto” a pessoa se afastou dela mesma. Tal afastamento no pensamento de Heidegger se faz imperceptivelmente pela influência de valores e verdades que na realidade não são do indivíduo. Isto deve ser feito sem sofrimento, mas como um movimento de crescimento e aperfeiçoamento pessoal no processo existencial. Entre algumas perguntas: o que faço, como vivo, no que acredito, meus valores, ainda são válidos para mim?

No mundo atual marcado pela economia de mercado, onde sabiamente Adorno já havia prenunciado que o ser humano deixou de ser indivíduo para se tornar mercadoria, não é simples se insurgir contra o “sistema”, e tampouco negá-lo. Há então o caminho do fortalecimento do indivíduo, da personalidade, da capacidade de resistência ou “resiliência” ante o cenário que não respeita o ser humano. Frente ás escravidões do mundo moderno, podemos e devemos manter firmes nossos valores individuais, nossa liberdade de pensamento e questionamento e a busca incansável por um estado de paz, harmonia e felicidade interiores. A fé a estes princípios é fundamental. Por termos abordado fé, de acordo com Perissé, o cristianismo é uma religião libertadora porque valoriza o estilo de cada pessoa na busca da santidade. Este é o objetivo exclusivo do cristianismo: libertar a liberdade humana e dar a cada um espaço de sobra, condições de sobra e energia de sobra para realizar-se plenamente como pessoa.

A salvação consiste em libertar o homem da morte e de muitas outras escravidões que o matam pouco a pouco, que o desvirtuam de sua vocação para a felicidade, de seu compromisso com a felicidade. A verdade do cristianismo liberta o homem de mil e uma mentiras camufladas em verdades.  O cristianismo é libertação. Libertação da massificação despersonalizante. Libertação do materialismo despersonalizante. Libertação do consumismo despersonalizante. Libertação do trabalho despersonalizante. Libertação do pensamento despersonalizante. Libertação da religiosidade despersonalizante.

Respondendo à outra parte da pergunta, nos casos em que a negatividade aparece como um sintoma de doença física ou mental ela deve ser tratada por um especialista da área da saúde.

Quando a medicação é necessária?

Como vimos na questão anterior, existem vários caminhos para lidar e tratar estes problemas. Em muitas das vezes, para levar o ser humano a um melhor conhecimento de si mesmo ou à redescoberta de sua verdadeira essência se faz necessária a ajuda da psicoterapia. Em outros casos uma “crise” existencial, geralmente marcada por muito sofrimento, pode também levar o indivíduo a um re-encontro consigo mesmo e com seus valores. A fé cristã colocada  por Perissé é outro caminho que leva à liberdade; sendo que a essência do Cristianismo é justamente o amor e a verdade “ conhecereis a verdade e ela vos libertará “  apóstolo João 8:32.

Esses caminhos entretanto são longos e ocorrem ao longo do processo existencial.

Não raro necessitamos intervir medicamentosamente na negatividade quando ela faz parte de uma doença e está trazendo prejuízos subjetivos e objetivos na vida da pessoa. A negatividade pode aparecer como sintoma em um quadro depressivo, em um quadro fóbico, ou ainda pode estar presente nos quadros de ansiedade,

nos transtornos obsessivo-compulsivos, nos transtornos de personalidade, entre outras doenças.

Nestes casos dispomos de modernos psicofármacos que juntamente com outras ferramentas terapêuticas podem trazer alívio ao paciente. Uma vez aliviado, pode-se orientá-lo a buscar outros caminhos que levem ao encontro consigo próprio. Esse encontro, consideradas as dificuldades, é muito bom; pois a essência do ser humano é positividade, criação, procriação, família, amor, sociabilização, esperança e fé.

Dr.Persio Ribeiro Gomes de Deus
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Dr. Persio Ribeiro

Dr. Persio Ribeiro Gomes de Deus - CRM 31656/SP Especialista em Psiquiatria, atuando principalmente nos seguintes temas: Dstúrbios Psiquicos da Modernidade : Depressão, Distúrbios de Ansiedade, Síndrome de Pânico, Angústia, Dependência Química, Síndromes Demenciais, Distúrbio do sono, Psicose, Crises Existenciais, Stress, Stress Pós-traumático, T.D.A.H, e demais quadros abordados pela psiquiatria e pelas Neurociências, incluindo convívio familiar, religião e teologia. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo e mestrado em Ciências das Religiões pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Palestrante. Atualmente é Diretor Técnico de Saúde do Hospital Psiquiátrico da Agua Funda. Médico Credenciado pelo Hospital Albert Einstein . Atende em seu Consultório Médico Particular na região de Moema. Pesquisador da Universidade Mackenzie pelo MackPesquisa e cnpq na área de Religiosidade e Saúde. É colunista do portal www.minhavida.com.br, canal com dicas de saúde, alimentação, emoções, bem-estar, família, beleza, etc… Tem experiência em televisão, atuando em diversos programas da TV Globo e programas e séries da TV Mackenzie. Professor de Psicologia e de Aconselhamento na Escola de Teologia da mesma Universidade. Atuou como Fundador e um dos coordenadores do programa MackVIDA – programa de Prevenção de Saúde da Universidade Mackenzie. Membro do Conselho Consultivo do COMUDA – Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas. Co-autor do Livro Eclipse da alma e diversas publicações médicas nas principais revistas especializadas. Músico, Pianista, Regente de Coral e Orquestra Recebeu a Certificação em 2009 - Mérito pela Valorização da Vida Disposto interinamente em ajudar o próximo. Dr. Persio, vem para somar como colunista “Eu causo em Psiquiatria”.

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